O Fabricante de armaduras
Na Roma antiga, próximo ao Coliseu, havia uma oficina de armaduras. Além de fabricar excelentes conjuntos de armaduras, escudos e elmos desenvolveu a fama de dar conselhos aos seus fregueses sobre combates, e até sobre a maneira de viver. Insistia ele na conduta do gladiador, dentro e fora da arena. Especialmente na sua forma física e treinamento.
Seus melhores fregueses, além de aceitar seus preços salgados, quando o visitavam se deixavam deliciar pela conversa franca e honesta daquele homem, deixavam-no destilar por longo tempo seus sábios conselhos e suas impressões sobre esse ou aquele combatente. E naturalmente, a melhor forma de sobrepujar o inimigo daquela tarde.
Aos fregueses eventuais que apenas o visitava para adquirir uma armadura que pudesse ser mostrada juntamente com seus elmos vistosos, que tivesse assinatura daquela casa. Gostavam mesmo era de desfilar com o brasão do fabricante estampado nas peças. Eram do tipo que insistiam na pechincha dos preços, ficavam argumentando além do preço o peso de cada peça. Julgando tudo muito pesado para ser carregado. Alegavam, e às vezes com razão, da grossura da chapa usada para fabricar o escudo, que resultava numa pesada peça.
O fabricante, não se fazia de rogado, e aproveitava a oportunidade desses diálogos para ensinar sua filosofia. Dizia ele:
Veja você. Eu fabrico a melhor armadura de Roma. Os melhores profissionais me procuram para adquiri-las. E sabe por quê? – Porque são peças próprias para profissionais e não para amadores. Os profissionais têm de diferente a capacidade de lutar melhor e mais bravamente, mas também tem a qualidade de se preparar – fora da arena - de modo diferenciado dos demais gladiadores.
Eles acordam ao nascer do sol, não ficam a sonhando acordados até tarde. Comem de modo correto, ou seja, não se empanturram de guloseimas e todo santo dia, cuidam do seu corpo, com exaustivo treinamento. Banham-se cedo e não freqüentam os bares da moda. Lêem sistematicamente algo de novo relativo à sua profissão e vão dormir cedo. Por isso são profissionais.
Sua vida é voltada todo tempo, para preparar sua mente e músculos para vencer seus combates. Por isso não reclamam do peso, porque seus músculos agüentam confortavelmente o peso específico de cada peça sem que aquilo lhe cause desconforto.
Outros, entretanto, vêm à minha casa, para pedir peças mais leves de carregar, peças vistosas com plumas encimando o elmo que mais me envergonham do que me satisfazem. Eu naturalmente reluto em trabalhar dessa forma. Porque mais me dignifica participar das vitórias do que dos desfiles.
Não sabem eles que o peso das peças só pode ser aliviado pelo treinamento dos seus músculos – numa rotina diária e metódica de treinamento – não sabem eles que a grossura específica da chapa tem a finalidade de proteger sua vida e que fugindo desse padrão, não só estão se enganando, como correndo riscos de não sobreviver ao primeiro embate.
É assim, a vida é dura para os moles. A vida é mole para os que se preparam para vivê-la de um modo mais racional e sem engodos ou enganos.
De que se lhes adiantará uma peça vistosa, leve e fácil de carregar, se ela não resistirá ao primeiro golpe de uma espada de combate desferida sobre sua cabeça sem dó nem piedade por seu oponente. Ele se preparou toda vida para essa luta, e vai lhe desferir o golpe sem qualquer sentimento de culpa, porque seu treinamento foi feito para aquele momento.
E você me pede para que sua proteção seja leve, suave. O que somente pode ser feito com chapas mais finas, logo menos resistentes, que certamente não vão resistir à primeira luta.
Mas... sempre tem um mas, eu vou fazer o que me pedes. Porque não sou palmatória do mundo, não posso viver sua vida, não sou melhor do que ninguém a ponto de achar que os outros devem viver a sua vida ao meu modo de viver. Cada qual é afinal de contas, dono de seu próprio corpo e faz dele o que bem quiser.
Eu cá sou de opinião que devo ganhar meu pão meu vinho de modo honesto, e nesse honesto se incluiu fabricar armaduras mais resistes com a melhor chapa, e do modo mais confortável possível. Só que isso implica em um peso extra que os meus clientes têm de carregar, esse peso somente poderá ser aliviado – repito – pelo seu treinamento diário.
Na verdade é o treinamento continuado que vai permitir fazer a distinção entre os verdadeiros heróis da arena e os vaidosos enganadores. A armadura, o escudo o elmo – são somente acessórios, disponíveis para o seu trabalho. Como vão manejá-los será próprio de cada lutador.
É assim: aos profissionais verdadeiros – à vida regrada, o treinamento, à realização e o objetivo maior alcançado - o pódio e a coroa de louros. Aos medíocres a ostentação, às plumas, o ressentimento e as desculpas de uma vida sem realizações.
É um enganar enganando-se eternamente.
Ao homem resta, portanto, preparar-se para vida, treinar para o combate sem engodos sem enganações – com assertividade - com destemor e coragem de recomeçar a cada dia.
Guarda, pois, essas palavras para que quando o teu rosto coberto com sangue e areia, vislumbrar o povo todo aplaudindo o vitorioso, e desprezando teu fracasso, não venhas a pensar que o mundo é mau. O que te colocou nessa condição foi tua falta de vontade de viver, viver com brio e com a fé de que tudo vale a pena “quando a alma não é pequena”.
aaalbuquerque Rio, 23 jun 2007.
Qualquer semelhança com: Professores, Provas e Colas – não terá sido mera coincidência.
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