O Primeiro bombeiro nunca se esquece.
Para que você realmente venha a entender o que se passa e como me sinto interiormente, peço sua licença para gastar um pouco do seu precioso tempo. Ah! O tempo, tudo antigamente – digo lá pelos anos sessenta, que alguns teimam em classificar em tempos de chumbo, só porque as forças militares não gostavam de bagunça, naquele tempo eu era estafeta, sabe o que é isso, é office-boy, na língua do tio san. E eu costumava ir aos bancos receber cheques para os chefes, e chefe sabe como é, tem conta em banco de bacana. Lá ia eu com o maior cuidado para não perder o cheque e lembro, especialmente de um banco, o Banco de Boston – Rua da Quitanda com Alfândega, você adentrava (eu usei isso só por lembrar de um baiano conversando na praia com os amigos, repetiu umas quatro ou cinco vezes – e eu fiquei sem saber se isso é bacanisse ou babaquisse – quem souber me informa), na Agência e vislumbrava um balcão com os caixas, uns quatro ou cinco, te esperando – sem aquela proteção de vidro, e você entregava o cheque – ele conferia numa cartolina, o saldo existente, pegava outra cartolina e verificava a assinatura – quando queria ser rigoroso, porque como eu já era conhecido, até esse passo era suprimido, o Caixa contava o dinheiro à minha vista calma e pausadamente, para que eu pudesse acompanhar e me o entregava com um boa tarde, um bom dia, e lá ia eu cuidadoso para não perder – sem o receio de hoje de ser assaltado.
A que vem isso? Ao intenso uso da informática e dos computadores – do automatismo que alongaram o tempo indefinidamente. Sabe temos de repensar na utilização racional desses equipamentos, porque estão trazendo transtornos. É claro que compreendo que o número de correntista aumentou, e claro que a infinitude de operações só poderão ser realizadas via eletrônica. Mas perde-se hoje muito tempo para fazer a mesma operação que se fazia no passado sem essa parafernalha toda, e com uma interação humana mais aceitável e por isso com menos desgaste emocional.
O tempo passou as coisas se complicaram, principalmente, para quem teve um treinamento operacional (chique isso em? mas ficaria melhor: pratica em fazer as coisas), sem o uso intenso da informática como eu. Como naquele tempo pude aprender que ao homem só é lhe permitido viver se estiver disposto a viver o seu tempo, e como o meu tempo ainda não acabou – o juiz não apitou, então não acabou e pronto. Voltei a sala de aula, para fazer direito – quando no passado deveria ter feito mas não fiz e não me vou me torturar agora pensando os porquês, ou as desculpas, todas são próprias daquele tempo – agora não.
Voltei a estudar – e como não poderia deixar de ser – procurei o comodismo do curso próximo a minha residência, onde pudesse calmamente me deslocar ao fim da tarde, e encher minha cabeça – de teorias e institutos jurídicos, princípios constitucionais, que na prática resultam nulos, mas que aprendemos ser “assim mesmo”. (O critério de facilidade nem sempre combina com o de qualidade).
Estava eu gostando, da convivência com as minas (isso é paulistada pura), do calor das tensões das provas, das discussões acadêmicas, da malhação do governo, das ideologias discordantes, das broncas recebidas veladamente, da que pude dar sem muito pejo, (agora me superei), porque aos sessentões isso é permitido. Mas, toda história que se presa tem um “mas”... cheguei ao quarto período e me borrei todo.
O processo de aprovação é assim: consta de três provas denominadas A1, A2 e A3 – com a obrigação de você atingir doze pontos, ou média 6 em duas delas. Se você conseguir 7 na primeira, ira precisar de 5 na segunda e pronto está dispensado da terceira. Mas se você tirar 5 na primeira, e 6 ou nota inferior que não somaria os 12 pontos, você terá direito a fazer a A3 e descartar a de menor pontuação.
Foi isso que aconteceu eu fiz no período sete matérias e fiquei para prova de A3 em seis matérias, ou seja, passei em apenas uma – a que mais odiava, porque tinha tudo de ruim, inclusive o aluno, mas a esse eu desculpo, por estar velho, com pouca memória e vivendo um ambiente desconfortável, no meio daquela juventude toda.
Hoje, quarta-feira – 12 dezembro 2007, lá fui eu fazer a minha prova de Serviços e Servidores Públicos, a qual eu não consigo entender porque tenho de aprender como matéria do curso, essa classe com suas conquistas, com sua arrogância, deveria ser a ultima coisa a ser ensinada a um ser humano, no entanto eu tenho – justo eu, que fiquei três horas na fila da Agência da Secretaria da Receita Federal – Leblon, para dar entrada em um requerimento, no passado – (na época do chumbo, agente se dirigia ao protocolo central – e o atendente nos estava esperando), justo eu tenho de conhecer o artigo 37 da constituição que diz tudo diferente do que acontece – só para ilustrar lá esta escrito:
“Art.: 37 – A administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência...”
Estão mangando do brasileiro, estão nos fazendo crer que vivemos no melhor dos mundos, só porque temos de aprender utopias, que nem criação nossa é.
É assim mesmo, o que está escrito é uma meta para que todos possam atingir como objetivo maior da sociedade como um todo. Está bem, então vamos nas faculdades, ensinar ao cidadão que isso tem de valer e se não for assim: valendo, terá de ser combatido e não aceito pacificamente, como fazemos hoje. Então não é o que está escrito que está errado, o erro consiste em não se combater o desvio de conduta na prática. O desvio das academias ensinarem o conformismo do “é assim mesmo”, quando sabemos que temos uma meta social a ser atingida a qual somente poderá ser alcançada com combatividade, ou seja, com trabalho, com moral, com determinação e descortínio e luta.
Voltemos a prova – Serviços e Servidores Públicos, acho que me dei bem, mas isso não é e nunca foi importante, nota alta, nota baixa, são circunstâncias passageiras inerentes a quem estudou mais ou quem estudou menos, de quem aprende mais rápido ou quem aprende mais lentamente. O que importa em tudo que fazemos é sem dúvida o relacionamento humano, porque a vida na terra está circunscrita a interação humana, que por fim preenche todas as lacunas e carências possíveis de serem encontradas em qualquer ambiente.
Caiu nesta noite de 12 de dezembro 2007, por volta das 20:30 horas uma tempestade torrencial, dessas que formam rios, como aconteceu de fato, na Estrada do Galão. Apesar disso lá estava eu esperando a professora chegar em sala, com as provas de A3, poucos alunos e muita expectativa. Foi fácil, simples e acredito deu para “contornar”. – que vale é aprender o suficiente para ser aprovado na prova da Ordem.
Ao sair fiquei na porta do prédio, matutando e esperando a chuva diminuir, e jogando aquele papo descompromissado com outros conhecidos que haviam feito provas também. Quando aparece um jovem – trintão e me oferece carona – aceita sem qualquer sombra de dúvida, mesmo porque entre navegar, e seguir confortavelmente, a melhor opção e sempre bem vinda.
Lá vamos nós, papo cabeça, alegria do Natal, o aborrecimento de não estar livre inteiramente para curti-lo, mas uma dúvida surgiu, porque ele me chamou pelo primeiro nome, ao que eu incontinente fui forçado a perguntar o seu: Jonilson. Pergunto em seguida se era Fuzileiro Naval, porque havia mencionado ser militar. Não. Era bombeiro e trabalha no quartel central e embora trabalhe no Recursos Humanos, justamente com a legislação afeta ao funcionário público estava na mesma oportunidade fazendo a tal prova, não por perder a memória como eu, mas por perder a primeira prova. Lembram das circunstâncias, essas coisas acontecem toda hora, e não dá para mudar ou ficar aborrecido ou perder a tranqüilidade por isso.
Lá estava eu com meu primeiro bombeiro, alegre e feliz, conversando sobre matérias esquisitas e fiz questão de perguntar também, como ele sabia do meu nome, já que ao me oferecer carona, havia demonstrado conhecer. Ao que ele me disse que todos no colégio já me conheciam, porque o professor (não sei qual – injustiças também acontecem) fazia menção a mim toda aula. Aí eu virei celebridade, e estufei o peito, ganhei o meu dia.
Até cair a ficha – e descobrir o por que disso.
Estava eu macambúzio (fala a verdade, me ler é cultura pura) e, intolerante comigo mesmo, com minhas seis pendências, fazendo uma força enorme para assimilar o golpe, dizendo pra mim mesmo, você esta perdendo seu tempo, esta jogando seu dinheiro no lixo, em cinco anos de investimento na bolsa, você vai acumular um bom capital e talvez esteja na hora de repensar sua vida, e viver como um velhinho feliz, com menos atribulações acadêmicas.
Também nesse dia, exatamente nesse dia, recebi uma mensagem eletrônica, dessas que os colonizados chamam de “e-mail”, de um companheiro do Conselho de Administração do Condomínio, dizendo do seu desagrado e me convidando a não usar o seu nome sem a sua autorização, quando eu apenas fiz uma minuta de ata – para ratificação do nome do sub-síndico e ousei lhe enviar para opinar. É gente importante de mais, que não aceita o mundo como ele é, cheio de gente com defeito de fabricação assim como eu.
E, isso mais as notas da prova A2, me deixou de farol baixo, sorumbático ao extremo e fui assim mesmo, curtir meu saudável hábito de não desistir nunca – afinal sou brasileiro, e brasileiro não desiste nunca, não faz nada, mas também não desiste.
Quando ouço do meu prestígio, da minha popularidade – eu fico intrigado: porque será que ninguém me pediu autografo, isso não é comum nas celebridades? – porque eu tão lembrado sou justamente o discriminado. Deve ser porque a realidade nunca está exatamente onde nós mortais pensamos estar. Ela se nos apresenta de forma curiosa e desastrosa, as vezes como a de ontem se apresenta de modo curioso e despretensioso. Mas fique ligado, porque ela sempre vai se apresentar aos que mantiverem sua fé na vida, e sua atenção voltada a ouvir o que o seu interlocutor está realmente dizendo. Até porque sua razão muitas vezes conflita com suas oportunidades e você pode se borrar todo, se quiser vivenciar tudo ao mesmo tempo, e exclusivamente ao seu modo, dê uma chance ao sagrado, ao misterioso, ao oculto e tudo vai transcorrer como direi: divinamente.
Sabe por que, digo isso, porque estava pronto para deixar o direito, partir para outro ciclo, embora não seja do meu feitio – nunca é tarde para criar um feitio novo e passar a ser irresponsável também, ou melhorar, vá lá tentar melhorar o que julgamos insuficiente em nós.
O que ouvi foi que era conhecido, e que algum professor ou alguém havia mencionado a minha figura, ora isso é um bom motivo para não desistir tão facilmente, (ou pelo menos é assim que eu leio o tema), porque a coisa mais difícil do mundo é você ensinar a alguém alguma coisa através do exemplo, porque isso exige comportamento ético, e a cultuar valores como: honestidade, pontualidade, coragem, desprendimento, disciplina, aceitação de suas limitações. Além de liderança, organização, clareza, fé, etc. etc., como também de muita humildade e modéstia, como essas que me são características, na prática diária.
Viver um dia após outro, a cada hora ser chamado a não transigir e continuar exemplificando extra muros de sua família é um bom motivo para continuar, mesmo que isso seja realidade apenas para mim. Porque necessariamente as verdades que vivemos não precisam ser realidades para todos, bastam que nos sirvam de paradigmas para continuar, lutando por aqueles ideais com que fomos forjados durante toda nossa vida.
Então no mesmo instante que ouvi o “Meu bombeiro” dizer que me conhecia, apesar de nunca te-lo visto, foi motivo suficiente e necessário para que o meu comportamento mudasse as minhas idéias a respeito de parar e fosse inundado com um comportamento de Ulisses, vencendo seus dragões. (Se não foi ele deve ter sido S. Jorge).
O fato em si é que o sagrado nos reserva surpresas, apresenta seus anjos e seus demônios de formas inusitadas, de modo que possam transmitir as mensagens do deus que acreditamos de modo surpreendente. Mas para isso você precisa estar aberto a essas mensagens, o receber a mensagem, não garante que você vai ouvir, e muito menos que você irá processar e entender de um modo positivo, de modo possa parecer um tijolo, com o qual você irá construir sua fortaleza.
Pense nos mistérios – da vida, da interação humana, na capacidade de amar o próximo, na necessidade de compreender esse próximo não exatamente como você gostaria que ele fosse, mas apenas veja-o diferente, com algo a servir a você como curiosidade das formas de ser de cada um. Veja esse momento apenas como uma voz humana, tentando dizer a você – através de notícias banais – mensagens daquele que lhe ama profundamente e deseja que você aprenda sem medo a construir sua própria felicidade, claro isso é um exemplo.
Não poderia de deixar de fora, outro sentimento que neste momento, se faz presente. Mantenha sempre a esperança de que tudo passa, não se exaspere, não se irrite, não culpe os outros por suas preguiças e principalmente, acredite que amanhã tudo será diferente, mas mesmo assim: um ótimo dia para viver e amar, profundamente, na exata medida com que você amar.
Apolinario de Araújo Albuquerque
Rio de Janeiro, 13 dez 2007.
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