Pense comigo
Como faço todos os dias, leio o jornal na parte da manhã, acho que esse ritual passou a constitui apenas um processo de auto flagelação, porque se pensarmos direito não existe qualquer razão lógica ou de interesse intelectual, que justifique esse danoso hábito. Já dizia o cachorro de Pavlov, o condicionamento é a mãe de todos os males. Se nós podemos escolher livremente o que devemos pensar, porque então escolhemos encher nosso repositório de pensamentos com coisas inúteis, alarmantes, negativas, fúteis e desinteressantes. Que só nos afastam de nossa melhor aspiração de uma vida melhor.
No presente, estou me preocupando seriamente com esse conceito que diz: sermos nós seres humanos, racionais e livres. Portanto, donos de nossa vontade e do que pensar, e se assim for deveríamos ao menos pensar em algo que fosse construtivo e não destrutivo, como o são essas notícias diárias, veiculadas por grupos com seus mesquinhos interesses particulares, e nada condizentes com nossos melhores anseios e de elevada inspiração. Logo, não os deveríamos utilizar ou, pelo menos, na medida em que deles fazemos uso.
Hoje o jornal “O Globo” expõe de forma cruenta a mazela da educação escolar, mais uma vez a ferida é exposta de modo que possamos ver aquilo que a sociedade capitalista, ou melhor, que a filosofia capitalista faz com os jovens e se procurar bem, faz também com os velhos, os trabalhadores etc.. Crianças, que deveriam aos doze, treze anos estar alfabetizadas a ponto de saber ler e escrever algo, são completamente cegos nesse particular, portanto, impedidos de pensar, pelo menos impedidos de pensar o mundo em que vivem. Estão excluídos do mundo dito moderno, não seria melhor mundo malvado?.
Já vivi nesta terra uma discussão sobre nossa incapacidade de ensinar nossas crianças, e a conclusão a que se chegou foi que era preciso, necessário e fundamental que as crianças recebessem merenda escolar – almoço e janta – porque criança com fome não aprende. Justo muito justo. Só que hoje, os colégios se transformaram em grandes restaurantes e fugiram do seu objetivo básico de ensinar: ler, escrever e contar.
Não seria mais racional incluí-los como consumidores? Onde está a lógica que os nos fazem incluí-los como pedintes? Ou de bandidos quem sabe? Que lógica capitalista esquisita é esta?
São detonados no processo, uma avalanche de culpas, de carência de gente, de verbas. E tudo existe pronto a ser utilizado de modo racional, mas nada de útil é produzido. Eu lembro que a minha alfabetização, foi feita numa mesa de madeira, às vezes na varanda de um casebre, outras embaixo de uma mangueira no Bairro da Luz em Nova Iguaçu, por uma fada Chamada Terezinha, que sem merenda escolar, sem uniformes, sem ventilador ou ar condicionado, sem quadros negros ou coloridos, sem a família que pudesse me ajudar. Mais com disciplina e vontade. Ou seja, sem nada disso que se disponibilizam hoje, assim mesmo em um ano e pouco se muito, pude alegremente ler e entender os escritos das ruas, saber ver hora, ler o catecismo, a ponto de compreender e memorizar os dez mandamentos – fiz a primeira comunhão por conta disso, com sete ou oito anos. Ah! Eu sou normal. E os outros – são o quê, anormais por acaso?
Não eu não penso que no passado tudo era melhor. Penso que nós (esse nós não inclui os políticos, porque não são gente: são arremedo) hoje não estamos querendo é resolver o assunto. E que por sinal é um assunto prioritário para o país. As desculpas, hoje do “não fazer” são mais elaboradas com teses exaustivas e fundamentadas e generosamente fartas bibliografias autorizadas – de arrepiar. E o resultado é. Pífio, observem os seus atendentes nas lojas.
Eu li meu jornal e por conta da minha vista cansada, me deu sono, e ali mesmo recostei minha cabeça e fiquei preso no labirinto dos meus pensamentos, nos meus porquês. É isso o que realmente quero que vocês me ajudem a resolver, porque acho que não estou bom da bola, ou como diriam meus antigos parentes: Estou “trimilicando”.
Do meu quase dormir – me vi passeando em uma floresta, grandes arbustos, folhas pelo chão, galhos secos e mortos, arbustos verdes como promessas de grandes árvores do amanhã me cercavam e nutriam de uma verde esperança e de um ar puro e frio, que ao passar pelas minhas narinas traziam o prazer de sentir a vida, e o aroma de sentir o cheiro do bem, da paz e da harmonia reinante, como se fosse um pedaço do jardim do Éden.
Eu queria estar dormindo, mas não estava. Pensava acordado e lúcido apenas sonhando e sonhando acordado – talvez em fuga, para não sentir a pena de ter capacidade de ler, quando tantos estão sendo solenemente enganados. Não pelos poderes públicos somente, mais sim por todos nós gente desse rincão chamado Brasil.
É o meu sonho que eu quero lhes contar.
Na minha caminhada, por dentro de uma densa floresta, em certo momento, me vi esbarrar em uma parede de vidro, translúcido que permitia ver claramente o outro lado, e ele ali me impedindo de prosseguir, na minha caminhada. Estava o imponderável vidro: quieto, translúcido, branco, alto e extenso. Não entendi. Apenas caminhei um pouco para um lado tentando contornar e descobri que ele se prolongava infinitamente, para um lado e para o outro, se enterrava e se estendia até o céu infinito. Estava emparedado.
Examinei atentamente o outro lado, e nada de anormal se me dizia ou explicava a razão daquela parede, tudo perfeitamente igual à mata onde estava eu, chão coberto de folhas e galhos, arbustos verdejantes, e grandes árvores apontando para um céu azul salpicado de nuvens brancas.
É o desconhecido intransponível que se apresenta à minha frente. Por mais que eu tenha vontade, por mais que eu tenha desejo e curiosidade, o meu limite está ali altaneiro, silente e imóvel. Sem nada dizer, mas dizendo tudo que naquele momento não quero. O mundo paralelo se me apresenta e eu apenas não compreendo, não decifro e nem posso descobrir.
Estaria eu dormindo e sonhado que estou acordado. Ou estaria eu sonhando acordado em devaneios dado meu estado de racional incompreensão, dos fatos vividos e trazidos como problemas que se arrastam, por longos e longos dias. Estou eu perdendo o juízo, ou é assim mesmo?
Outro dia, no passado recente, me vi estar em consciência em vários lugares, e no caso também habitando em montanhas cobertas de árvores, e claramente tinha consciência de existir em todos os lugares sem haver necessidade de me deslocar de um ponto a outro. E eu racionalmente escolheria viver essa consciência, de puro espírito, para viver minha eternidade. Se isso não constituir uma redonda bobagem, claro. Ou será que morri em vida.
Qual a razão então de querer ir além daquela barreira, se tudo que vejo do outro lado se me apresenta igual a onde estou, porque não fico onde estou. E porque tenho em mim despertada a necessidade de conhecer além do intransponível, e me faz pequeno e frágil, diante de uma barreira.
Porque meus pensamentos se me atormentam na prisão de uma barreira apenas, quando tenho toda uma extensão para descobrir nesse lugar onde estou uma vida repleta de coisas novas e interessantes? A minha barreira é um limite que me prende onde estou, ou constitui um desafio a ser superado em minha caminhada? Pedindo para que vá além.
Sabemos nós que minha parede é irreal, portanto, não existe materialmente. Está em um campo fora da minha capacidade racional de compreender. Mas mesmo assim, ela pode existir no mundo da ficção e lá eu estava vivendo, portanto, se eu também tenho um mundo ficcional a viver, minha parede também existe, e se ela existe lá nesse mundo – ela é real também. Ou você duvida que tenhamos uma vida ficcional a ser vivida por todos?
Se aquela barreira parecida com vidro translúcido, pode representar o meu limite de ir e vir, ou a senha para que eu descubra um novo caminho a seguir é o que se questiona agora. Todos nós temos essas paradas em nossas vidas. Todos nós nos deparamos com nossas paredes invisíveis e desconhecidas. O que podemos fazer diante delas é o que conta.
Podemos simplesmente, parar e choramingar por não podermos ir além; podemos voltar às costas ao empecilho natural e procurar descobrir um mundo novo, dentro do mundo velho que vivemos; podemos tentar voar em direção ao céu infinito buscando a passagem que poderá não nos trazer de volta; podemos tentar fazer um caminho paralelo – seguro – vivendo nosso mundo atual, e conservando a esperança de achar uma brecha segura que nos mostre a passagem e possamos descobrir aquele mundo novo.
Podemos até simplesmente explicar nossas ações e reações, o homem pode tudo e nada. Pode tudo quando pensa e age, pode nada quando sucumbe às suas barreiras. E. podendo tudo não precisa se julgar um deus onipotente, porque fatalmente ao descobrir a sua capacidade de superar suas limitações se infla de vaidades, e se descobre em mascarada autolatria. Sucumbindo às barreiras, morre em vida – tornando-se um coitado.
Vivamos, pois nossas vidas, aquela real que você defende e advoga com todo monetarismo e racionalismo possível e, a ficcional que nos permite fugir e vivenciar outras realidades, e que de certa forma nos prepara de modo sutil para os dia-a-dia, onde comemos, bebemos e vestimos, mas que um dia esses benefícios nasceram e são como são, porque outros como nós, ousaram sonhar acordado e não tiveram qualquer receio de pensar sobre e como viver em outras vidas.
Apolinario de Araújo Albuquerque
Rio, 23 dez 2007.
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